sábado, 22 de dezembro de 2012

EM COMA‏

Quero escrever, mas minhas mãos já não se movem. Tenho a mente vazia de inspirações. Já não psicografo minhas próprias mensagens ocultas. Já não entendo nada. E nada; é tudo. Vazio. Cru. Interminável.

Há uma linha invisível prendendo meus punhos à cama. Não consigo levantar. Os olhos não abrem. A paisagem é nuvem cinza de tempestade violenta. Formigueiro de sentimentos consumindo o açúcar do algodão que já não é doce e está sujo demais para limpar feridas. Os remédios estão sempre na cabeceira, não há outra maneira de sobreviver.

É que quando as palavras calam surge em mim a vontade chorar. Chorar os pensamentos que sei que estão em algum lugar onde não alcanço. Talvez passem por mim acelerados sem que eu possa capturá-los, pois meus movimentos são lentos, fruto da vida sedentária que levei...

Só me saem lágrimas secas e invisíveis. O que guardo é mais salgado. Mais profundo. Mais doloroso. O que guardo e já não quero guardar, mas não tem jeito. O que guardo sou eu protegido por uma cápsula de gelatina bamba em cima de uma mesa torta.

Devolvam a minha inocência porque já não suporto saber que alguns sonhos são irrealizáveis. E já não suporto esse ceticismo e essa armadura que eu vesti. Pesa muito, estou cansado.

Queria ser formiga, carregar nas costas um mundo de soluções, mas estou preso à minha natureza humana: frágil.

Não quero sentir tanto, sinto muito, e não sentir, doi, mas sinto!



terça-feira, 11 de dezembro de 2012

QUE 2013 SEJA SIMPLES!

As coisas podiam ser mais simples.Sem medo,sem acontecimentos inesperados, sem narrações tensas quando só queremos um pouco de música suave.Poderiam não nos perturbar e,em troca, nós não perturbaríamos também.


Não diríamos coisas negativas,não entraríamos nas pilhas erradas.

Não nos emp...teceriamos diante da fila do Into, e não ouviríamos frases idiotas dos apresentadores das T.Vs. como “o pior é que as pessoas na fila têm problemas de locomoção” se é por isso que elas estão lá. Se as coisas fossem simples, dormir pelo menos dez horas por dia aliviaria as dores, como disse um estudo divulgado na semana passada.

As coisas podiam ser mais simples. Não haveria mal-entendidos, não fingiríamos frieza.

Abraçaríamos querendo abraçar, sorriríamos querendo sorrir, desprezaríamos querendo desprezar. As flores enfeitariam as casas sem que precisássemos tirá-las da natureza.

As de plástico também não destruiriam a natureza e levariam menos anos para se decompor.Se as coisas fossem mais simples, a gente teria direito a fazer piada e ser malvado uma vez, e todos entenderiam os nossos deboches, e saberiam que foi só uma ironia.

Beberíamos e fumaríamos mais para ficarmos bem,não nos feriríamos com o que dá errado,

Não interpretaríamos mal o que o outro disse. Demonstraríamos as bondade quando quiséssemos ser bons;e a verdade quando quiséssemos ser verdadeiros. Contaríamos mais histórias.

Álcool faria tão bem quanto água.

As coisas poderiam ser mais simples. Os anos passariam e tudo iria clareando, e não só os nossos pelos, os caminhos iriam se abrindo, nós seríamos de massinha e iríamos nos moldando. E não o contrário,


                                                                pois endurecer dói.



QUE 2013 SEJA SIMPLES!



quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Por um Natal mais festivo!(Céu Maria, uma boa menina, para Papai Noel.)


Barbudo,
Sei que já passei da idade de escrever cartas pro senhor, sei que puxei a barba dos teus assistentes e não acreditei em ti. Mas hoje, eu fecho os olhos e torço para que a magia do natal não se perca.
Sabe, Noel, eu sei que existe uma porção de crianças que foram boas a vida inteira e ficarão sem presente neste natal. Como posso, então, acreditar na tua existência?
Há relatos de que fizeste milagres, não acredito, para mim, a tua existência já seria um milagre. Um milagre bonito e aconchegante que traria esperança ao mundo.
Então eu ignoro o meu ceticismo e não quero nem saber se foste inventado pela Coca-Cola ou se és ou não símbolo do cristianismo. Não quero saber. Eu tento acreditar, porque preciso, que o bom velhinho está em algum lugar lendo esta carta enquanto os duendes empacotam os presentes.
Se eu fosse você, Barbudo, deixaria doces e presentes para todas crianças, mas todas mesmo – pode ser até um sonho, ou dois – junto com a máquina de fazer nuvens de algodão. E não me esqueceria das crianças sem endereço, pois são as que mais precisam daquele embrulho mágico que guardas os sonhos. E faria isso sem demora, antes que o teu trenó movido à esperança pare de funcionar.

Isso É uma ameaça!

Brasil, mostra a tua cara!


22 de novembro, 102 anos da Revoltada Chibata,um dos mais importantes movimentos populares no Brasil contra os maus tratos de uma classe dominante, controladora das riquezas e das instituições.
João Cândido e seus colegas pobres e descendentes de escravos tomaram o destino de suas vidas nas mãos e fizeram história.A nossa História é cheia de expressões coletivas, com grandes reações da elite encastelada.Não lhe faltam instituições para  subjugaar o povo,seja exército,polícia,justiça ou mídia.
Entre 1896 e 1897 o Exército exterminou a população de Canudos, idosos,mulheres e crianças, após fotografá-los  sentados no chão. Os soldados ex-combatentes, tão miseráveis quanto os assassinados,  ocuparam o Morro e nele plantaram uma fava (favela) trazida do campo de extermínio.A fava foi erradicada, mas a favela se alastrou. Em 1904, o povo se rebelou contra a vacinação compulsória, que lesionava e matava, por efeitos colaterais.
Toda a agressão  do Estado contra o povo é feita em nome da pacificação.
Mas, nem todo domínio se faz com o exercício da força.
Há também persuasão e manipulação. A queda de um Avião em Congonhas,por falha humana, até que as investigações concluíssem a causa,  foi tratada como responsabilidade do governo federal que não teria feito ranhuras na pista para aumentar a aderência.O julgamento do mensalão  se transformou em espetáculo e alegria dos que rejeitam a presença do povo nos aeroportos, que dizem estar parecendo rodoviárias.Nenhuma frase é melhor exemplificativa do que pensa a classe dominante que aquela proferida por um senador:
“Estou encantado, porque estaremos livres dessa raça pelos próximos 30 anos”.

Z U M B I (Miscigenação)


Nós  não passamos pelo teu crivo, porque  não nos  medimos pelo teu buraco. A tua peneira é pra tuas negas, tua turma, o povo da tua praia. Nós sacudimos em outra rede,que separa outros farelos, que não os do teu bico. Passamos ao largo de tua purificação, porque estamos satisfeito  como pecador que somos.
Misturamos yanomamis com tchecos, tapetes persas com cortinas plásticos de puteiros. Sua morada  é de página de revista, não somos personagem pra  teu cenário.
Sua grife não nos veste, porque insistimo num figurino que só caiba em nós. Vai desfilar suas tendências em passarela pra boi de presépio, que na próxima estação vai usar cinza concreto, que é ridículo e triste.
Compramos em liquidação, na arara da pro-mo-ção! Peça cara é a eternidade de nossa alma. Armani com Mercadão. Nossos deuses negros não podem ser medidos pelo teu bom gosto colonizado.
Asséptica s criaturas de alma dissecada em curtume que nunca questionam se o que te vendem vale.
Não,eu não vou falar baixo, eu não quero ser aceito no teu salão. Tua festa não quero convite, teu baile dança um ritmo onde eu atravesso e desafino. Sigo com as putas pro Cais, com os engraçados  pra folia,. Querem ar-refrigerado, queremos  fogueira enluarada; querem música  etiquetada. queremos os tambores para rodar o mundo.Tu,viajado;nós,passeado.Nós tsunami, voces calmaria.
Não nos arrependemos dos vômitos, das merdas, dos erros; não nos orgulhamos das glórias, dos aplausos, do dinheiro. Fomos como somos: Não há régua que possa nos comparar, bando de elásticos tentando adivinhar até onde podemos esticar, e que ninguém arrebente! Sem fórmula, sem metragem, sem peso, sem culpa.
Nós saímos do lugar onde nascem os sonhos; vocês nunca saíram deste lugar onde te colocaram de castigo.

domingo, 28 de outubro de 2012

Consequência

Tem medo de sair de casa e o encontrar. Tem medo de sair de casa e não o encontrar.


Pela rua, seus olhos sorriem para rostos estranhos. Seus passos seguem na direção errada. É que tem muitas pistas falsas pelo caminho.

Sinto muito.

Pensou que ele estivesse lá, mas não estava. Pensou que estivesse aqui, mas não.

Precisa esquecer de tudo o que foram juntos. Do seu jeito de conversar com ele dentro de ti. Desta mania de querer o escutar, de querer o entender, de querer viver tudo pra sempre.

Ela anda.

Quem a vê passar, assim despreocupada, não a reconhece. Não vê, no seu jeito de andar, os buracos, as pedras e as guerras que enfrenta.

Não vê porque a juventude oculta um coração em decomposição. E quem a vê andar, assim leve, não imagina o peso que é carregar seus pensamento.

 

sábado, 20 de outubro de 2012

Aos Evangelizadores Midiáticos!!!!

Se sua Igreja (Deus) é o comerciante divino, o vendedor de indulgências, o imobiliário do céu, o bajulador do Estado. É o pecador que acusa o pecado, é o juiz que enforca assassinos.
Se é que a que decretou que os negros não tinham alma para que seu povo pudesse desfrutar do trabalho escravo, que acreditou que o Brasil era o Éden e que seus índios são homens pré-diluvianos que precisam ser catequizados e destituídos de sua cultura primitiva.
Se é a que se diz a verdadeira Igreja de Cristo – como, aliás, todas fazem, e que lucra bilhões por ano é que é isenta de impostos. É o dirigente que faz lavagem cerebral em pessoas enfraquecidas pelo sistema ou por um desastre na família, e que, depois disso, tem para si um servo fiel, capaz de dar seu dinheiro, sua vontade e sua vida para o representante de deus na Terra.
Ele não é o melhor, nem o mais ético, nem o mais moral, nem o mais justo. Ele é apenas o mais divulgado, tanto pela fé, quanto pela espada. É o deus que chegou às Américas e expulsou todos os outros aqui existentes. É o que fala com voz branda e que grita aos doutores da igreja. E todos que nele creem o obedecem, mesmo que desse modo estejam obedecendo ao atual detentor do mito.
Assim é desde o inicio até os dias de hoje, quando o dízimo é pago com débito em conta corrente.
Se o seu deus se envergonha de tudo isso, eu respeito seu deus, mesmo não acreditando nele.


Nenhuma das ideias são reais, por mais que tenham assassinado, escravizado e manipulado milhões de pessoas durante a história!.

domingo, 16 de setembro de 2012

Prefeito(a) que quero,Vereador(a) que escolho!


Aprendi que votar é teclar um desejo. Não um desejo pessoal, individual, menor, mas um desejo social, coletivo. Exerço esse direito duramente recuperado e cumpro esse dever cidadão desde os tempos em que o voto era escrito em cédula de papel.
Por isso, preparo-me para o dia da eleição — dia emocionante, pelo tanto que custou à minha geração essa conquista. Aprendi a estabelecer critérios para digitar na urna eletrônica os meus candidato(a)s.
1 – Qual a história de vida do(a) candidato(a) qual à sua atuação social?
2 – A honestidade em sua vida é inquestionável?
3 – Quais são as linhas programáticas de seu partido?
4 – Como o(a) candidato(a) pretende contribuir para superar as desigualdade sociais,da irresponsabilidade ambiental, das várias violências,dos preconceitos?
5 – Como considera os servidores públicos?
6 – Como se posiciona em relação aos escândalos de corrupção?
7 – Quem está financiando sua campanha, e com que objetivos?
8 – Como está desenvolvendo sua campanha? Pelo convencimento através de causas?
9 – Quais suas propostas para as políticas públicas na cidade, os recursos e as maneiras de implementá-las?
10 – Como considera o povo de quem busca o apoio: como massa de manobra?
11_  Como são as pessoas que estão em sua campanha?
12_  Qual a visão de clientelismo que seus auxiliares tem?
13_  Ele e seus auxiliares tem condições de se manterem sem cargos?  
Faço as mesmas indagações na escolha do meu vereador. Acrescentando o questionamento sobre seu compromisso em fiscalizar o Executivo. A nossa política anda muito degenerada. Mas na solidão da cabine, na frente da urna, temos a chance de dar uma resposta a tudo isso.
E a obrigação!

sábado, 4 de agosto de 2012

Quando essa onda passar


Gosto de ver as Favelas mais à noite, a miséria é menos aparente, e olhando para cima, toda pontilhada de luzes , é como um céu no chão e estrelado.

O samba de Martinho da Vila: “Quando essa onda passar vou te levar nas favelas para que vejas do alto como a Cidade é bela. Vamos à Boca do Mato,meu saudoso Pretos Forros.Quando essa onda passar vou te levar bem nos morros. Não sei onde vamos primeiro,Formiga, Borel ou Salgueiro? Quando essa onda passar sei que vou lá na Mangueira pegar o Mané do Cavaco e levar pra uma roda de samba no meu Morro dos Macacos. É bom zuelar nas umbandas lá do Vidigal e os candomblés no Turano.Um funk, um forró ou calango no Andaraí, Tuiuti ou Rocinha.Ver os fogos de fim de ano da porta de uma tendinha e depois vamos dançar um jongo num terreiro da Serrinha”.No final do samba,um recado: “Alô rapaziada da Cachoeira,Cachoeirinha!A maior atração turística do Rio de Janeiro no futuro serão passeios pelos morros.Vamos fazer um tour pelo Jacarezinho,Acaú,Encontro...E que tal uma jura de amor no morro do juramento?”

A onda passou, os morros estão tranquilos, dizem os governantes, mas espero ver Postos de Saude, Escolas, Defensoria Pública, Juizado de Pequenas Causas,Creches,Escolas,Saneamento,...

Só vejo polícia.

 

domingo, 10 de junho de 2012

QUE UM DIA,ENFIM,DESCOLORIRÁ...




A tarde era clara, tinha um conjunto de canetas coloridas, que são a possibilidade de riscar um arco-íris, produtoras da mágica de cor na vida.Pobre lápis cinza,simples,que só produz um tom – queria todas as matizes, colorir. E começou pelas pétalas da flor de lis que imitava das meninas da escola.Uma pétala subia embicando, e duas pétalas menores desciam laterais, e do meio destas um fino caule e uma folha verde.

As pétalas podiam ser de qualquer cor,tantas possibilidades.

Não sei até onde foi, não sei até onde desenhou flores salpicadas nas laterais para enfeitar o conteúdo da matéria que depois colocaria no meio,nas linhas.

Foi quando seu rosto esmigalhou contra a folha do papel, alguém havia agarrado com força seus cabelos da nuca e estava esfregando seu nariz,seus olhos,contra a folha branca,agora manchada de tanta cor e ódio.

O papel dobrando em rugas, as mãos e braços tentando empurrar a face amassada para cima e a voz, inquisidora:quem te ensina a fazer estas mariquinhagens’?Porque você não é igual aos outros meninos?Porque tudo para você tem que ser enfeitado?

O‘x’ da questão: a necessidade do enfeite.Que tipo de humanos são os,afrescalhados, que precisam da cor e da vida decorada? Não basta o risco do grafite, precisam das canetinhas para colorir. Um mundo em giz de cera, aquarela, guache.

As gotinhas de sangue de seu nariz traumatizado deixaram tom de vermelho-sangue sobre a destruída página da sua obra de arte.

De um lado, o real que deveria trilhar para ser aceito. De outro, o sonho, a realidade tão dura e, muitas vezes, cruel. Ele não via o mundo como um jardim sem flores coloridas e não queria pertencer ao mundo em preto e branco.



Entre as nuvens/Vem surgindo um lindo/Avião rosa e grená/Tudo em volta colorindo/Basta imaginar e ele está/Partindo, sereno e lindo/O fim dela ninguém sabe/

Bem ao certo onde vai dar/Vamos todos/Numa linda passarela/ De uma aquarela/Que um dia enfim/Descolorirá...

quarta-feira, 30 de maio de 2012

D E S C O B E R T A S

Descobri não sou quem eu achava que fosse, nem sou quem achavam que eu era. Sei que eu não tinha esse sorriso parado, e morto, que desmancha só de olhar. Não eram minhas essas olheiras tão fundas nem esses olhos tão rasos.



Escrevo para compartilhar alegria, não para encontrá-la.


O equilíbrio que eu tinha cansou-se, escolheu um dos lados da vida, e descobriu que era o lado errado. Não pude voltar. Tudo em mim é caos e está por um fio. Tudo em mim é esperança que morre todo dia.


Acho que tive pressa e acabei vestindo a alma do avesso.


Entendo que tudo se transforma e se recicla, sei e não quero, e não querer me faz temer que o dia chegue... Temo que ele nasça como um sol camuflado de lua por trás das nuvens pesadas de um céu azul petróleo. Temo que um dia seja o dia em que minhas mãos não serão necessárias para tapar os meus bocejos, nem para acenar pro meu passado. Temo morrer sem ser notado, como se fosse um dia qualquer.






domingo, 6 de maio de 2012

Anexo Transcendental

"Pior do que quem fala o que pensa, é quem escreve..."



Tenho amigos! Não sei se são poucos ou muitos, nunca tentei contá-los. Mas os que tenho são o suficiente para me amparar.Confesso que Eles são gente estranha como eu.São também pessoas de cabeças e corações abertos.Possuem a capacidade de aceitar as diferenças e conviver.


Todos os meus amigos, são meus anexos - sim, uma-parte-à-parte-de-mim- Pura vaidade?!Não, eles são diferentes. Assim, sem bajulação.


Mas somos tão inconstante...como é que permanecemos ligados?Mesmo quando estamos errados, mesmo quando insistimos em seguir sozinhos?!Que pessoas são essas que perdoam sem recriminar futuramente, sem ficar de bico ou fazendo joguinhos sentimentais?Quem somos que nos protegemos e nos curamos tantas vezes de noss mesmos?Que largamos qualquer coisa pra irmos ao encontro, mesmo quando têm se transcorrido dias depois do último encontro?!Quero ensinar meus descendentes a serem como nos!Que nunca culpamos, nunca apontamos defeitos e sempre recebemos com um abraço quente, livre de qualquer maldade.






quarta-feira, 18 de abril de 2012

Feliz Idade!


Apõs os procedimentos, os remendos em meu coração, o m’edico me disse que estou novo, e posso viver tranquilamente mais 50 anos!
Se fosse um déspota com poderes absolutos mandaria logopara a guilhotina o cara que bolou a expressão feliz idade. E também os que dizem que a idade traz sabedoria e que os velhos devem ser ouvidos e respeitados. Sem essa do verso do samba “respeitem ao menos meus cabelos brancos”.
Muito pelo contrário: um cara que é idiota aos 20 anos, aos 60 será três vezes mais idiota.
E se for brilhante aos 20 anos, aos poucos irá ficando, com os neurônios caindo como folhas secas por onde anda, uma caricatura do que foi, meio cego dos ouvidos e surdo dos olhos. E a memória? Conversa de velho: você lembra do... (estala os dedos ), que costumava freqüentar aquele bar ... (estala os dedos), onde a gente comia e bebia uma... (estala os dedos).
Uma bailarina de flamengo estala menos suas castanholas que dois velhos conversando num banco de praça!
E, dentro da carcaça, dói tudo, um órgão de cada vez ou tudo junto.
Quando às vezes alguém me pergunta: Andou bebendo de novo?
Respondo: “Não. Vivendo ainda”.

domingo, 1 de abril de 2012

ESSA MENINA!

Há muito céu nesse chão que eu piso. Leveza demais nesse caminhar. Sei que a qualquer momento um buraco abrirá sobre os meus pés.
Uma voz diz, não tenha medo. Mas eu tenho medo, Dona Voz. Tudo o que tenho é um paraquedas de sacola plástica. E a voz insiste: Prove que ainda sabe voar! Mesmo que artificialmente. Mesmo que isso te quebre os dentes. Tudo tem um preço.
Todos os dias, escuto a voz
Seus dias são o seu empreendimento,
Creme do céu dura só por um momento,
Bolinho de chuva ela não erra, não.
Céu menina está sempre na contramão...
Confunde tempestade com as chuvas de verão!
Só pode estar sob algum encantamento,
Sua cabeça anda igual pastel de vento.
Céu, quando você crescer, descobrirão seu talento.
Nasceu para ser a garota do tempo!
Tento fazer com a que a voz desapareça. Já quebrei os dentes e a cara. E entre o caramelo e o sal, eu estou sentado, comendo pipocas de uma em uma. É que gosto dos prazeres lentos, aos poucos, torcendo para que nunca acabe.

segunda-feira, 26 de março de 2012

H I P O G L I C E M IA-H I P E R T E N S ÃO

Nunca estive tão à flor da pele.
Um cisco no olho é uma manada de elefantes.
Se bebo não paro até que o bar feche.
Fui cortar os cabelos e voltei careca.
Ao tentar correr atrás de mim acabo fugindo.
E se paro um pouco para descansar, as cadeiras vazias ganham vida e sobem pelas paredes.
Estranhos vêm e vão tão apressados que eu não vejo seus rostos.
A noite foi difícil, a manhã será pior.
Sou sonâmbulo enganado pelo realismo dos meus sonhos.
Quando acordar, se é que um dia acordarei, essas lembranças não serão mais do que fragmentos perdidos.

No C.T.I, controlo meus instintos. (não há rosto por detrás das máscaras).

quarta-feira, 21 de março de 2012

A PORNOGRAFIA DA CORRUPÇÃO EXPLÍCITA

Os programadores de T.V. de canais de sexo explícito devem estar
decepcionados. O ‘Fantástico’ mostrou, em 20 e poucos minutos, muito mais sacanagem do que qualquer especialista em pornografia poderia imaginar.
Motrou-se ali como os cofres públicos são penetrados e violados. O ritual da corrupção dispensa carinhos, cantadas,convites para jantar. É tudo simples: pagou, pegou.Na visão dos corruptores, sentar na cadeira de administrador de público equivale a bater ponto num bordel ou ficar à noite por algumas calçadas.
A desenvoltura dos corruptores assusta e enoja.
Eles nunca tinham visto o suposto “administrador”— o repórter —, não sabiam de seu passado e de sua eventual disposição para roubar, mas, mesmo assim, ofereceram propinas na maior cara de pau.Pareciam partir do princípio de que o sujeito, pelo fato de estar ali, era ladrão. É terrível! Que tipo de experiência gerou tamanha segurança, tanta certeza de que suas propostas seriam aceitas, bastaria apenas negociar a comissão a ser paga—10%, 15%,20%.
Descarados, chegam a falar em ética,em exemplo para os filhos.O feio é roubar e não levar; condenável é não dividir de maneira razoável o fruto do roubo!.
A segurança na apresentação das propostas de suborno: Será que quase tudo é assim?O toma lá/dá cá se repete nas licitações dos governos municipais, estaduais e federal? A banalização da roubalheira ajuda a explicar boa parte do desespero de políticos em conseguir nomeações.Os custos das campanhas eleitorais acaba contribuindo para a safadeza,um político pode dizer que o dinheiro não é para ele,mas para o partido.Dá no mesmo.
A tranquilidade com que a bandalheira é proposta faz pensar nas consequências da tolerância com os pequenos delitos. Os corruptores da TV parecem gente comum, que vai à feira, que frequenta o estádio e chama o juiz de ladrão.Gente que dá uma cervejinha para o guarda, que dá abatimento para serviço prestado sem nota fiscal. Um maior rigor sobre as atitudes tomadas no dia a dia ajudaria a minar a naturalidade da cultura da corrupção. Até porque orgias—como a da reportagem e a dos filmes pornôs—exigem sempre a participação de mais de uma pessoa.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

D E S I S T I N D O

Sentou naquela escada de madeira que fica em frente ao mar só para torturar-se com a areia entrando nos olhos. Mergulhado em sua própria nuvem de fumaça, pensou em desistir de tudo. Tudo mesmo. Até agora suas insistências só aprofundaram os cortes.
Entorpecido pelas ilusões da vida, caiu inúmeras vezes em teias invisíveis. Apoiou-se em pernas bambas. Tentou, a todo custo, livrar-se das amarras. Enroscou-se ainda mais.
Tragou profundamente as lembranças mais amargas e soprou devagar. Uma por uma.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

C H I F R E S

Como nenhum ser humano saiu de dentro da toca da cobra com chifres que abriu o desfile da Beija-Flor, transformando a comissão de frente em alegoria que anda sozinha, comecei a pensar nos... chifres.

Olhei pro abre-alas e vi caveira gigantesca e horrenda, de cujo crânio pulava um chifre. Surgiramos navios negreiros, cujo mar era sequência de chifres. Veio um bando de boi bumbá, estes, sem culpa nenhuma, cada um com dois chifres. E vieram se aproximando os peixes...com chifre.Na hora do cardume chifrudo,eu achei que o enredo era uma sacada bacana sobre um Maranhão belzebu,que deveria ser coroada com um Zé Sarney de chifres,pontiagudos, talvez luminosos,a imagem que todo o Brasil tem dele, exceto oMaranhão (exceto?).

Seria versão maligna das terras encantadas,cravejada de cornos,perfeita visão alegórica do mal, lugar onde estes senhores que infestam o noticiário político cabem muito bem.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Des)Medidas

Eu volto logo. Espere por mim, que eu volto. Só vou até ali na cozinha, pegar um copo d’água, pra minha garganta não secar de espanto.
Desculpe se demoro, é que na cozinha eu aprendo um punhado de coisas. Devo experimentar para não me faltar tempero. Para não nos faltar tempero. Para não nos faltar coisa alguma. Unto, para não grudar enquanto você cresce. Não economizo, para que renda mais do que o suficiente. Exercito minha paciência, para que as coisas não desandem. E até coloco uma colher de açúcar, só para quebrar a acidez.
Eu tenho cuidado para não passar do ponto, mas erro. Quem sabe, se a gente tirar os pedaços queimados, ainda reste alguma coisa?


* Sei que a tua medida é diferente da minha, mas se der para dois, eu aceito.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

A Coluna da Pilastra

Sempre que a porta do elevador se abre eu me assusto
porque vejo um andar inteiro,um grande vão, sem nenhuma pilastra.
Fundamental elemento de sustentação tão martirizado por ser
feio, estar sempre no meio do caminho,atrapalhando a
vista.Sem ela, só com poderoso concreto da arquitetura de Neimeyer
para sustentar o vazio.
Temos que minimizar sua interferência, aprender a conviver com elas: eu vejo o vão sem elas, eu imagino o todo subtraindo aquele trambolho.
Sempre percebi que tenho que ter pilastras na alma, para continuar de pé. E me fiz prédio, conhecedor de minhas pilastras-morais,meu código de ética,minhas crenças,meu respeito pelo que me edifica.E cinqüentão agradeço a cada pilastra que não arranquei, que brecou o meu caminho em linha reta,me fazendo ponderar questões que me desestruturariam ou me colocariam em risco.
Recusei as drogas nas festas pelo fato de já conhecer de perto a minha pilastra da loucura.
Mas conheço o torpor do álcool, pois minha pilastra pinguça é fortíssima.Jogo de estica e puxa,de conceder e negar, tudo diante da extraordinária existência da moralidade, no meu caso muito individual, pois recuso as artificiais pilastras que o senso-comum ou a religião querem fincar em mim, mas sei que só sobrevivo se tiver minhas pilastras pessoais. Elas atrapalham porque freiam,mas nos tornam civilizados.Desejo boa sorte aos que sobrevivem e são felizes sem pilastras,mas preciso escutar minha voz da consciência para sair vivendo.Carrego minha história e minhas crenças na engenharia do coração,convivo com minha “empena-cega”que é aquele lado de mim onde estão fantasmas que de vez em quando vêm me visitar. Estão lá,e não posso arrombar janelas e paredes para destruí-los, isto comprometeria a estrutura.
Claro que tem a negociação possível de arrancar uma coluna desnecessária construindo uma poderosa cinta de concreto entre duas outras: é quando concluímos que temos que abandonar um preconceito.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Acidentes!

Foi aterrorizante esta ali; naquela praça no centro da cidade onde todas as flores estavam desbotadas, onde o silêncio doía e o vento cortava. Naquele dia em que Angra 1, 2,e 3 explodiram.Vi pessoas descascando igualzinho a papéis de parede envelhecidos. Revelando as imperfeições que escondiam. Tudo exposto. Uma delas tentava colar as partes que se desprendiam da testa, outro gritava, alguns xingavam, e todos tinham no rosto a mesma expressão de desespero.Os bancos estavam cheios, as pessoas esforçavam-se para não se tocarem, percebi que não tinham escolha senão sentar e tentar entender, e tentar impedir, e tentar aceitar. Algumas resistiam bravamente caladas - talvez estas já tivessem aceitado.Percebi então uma garotinha que tremia e escondia o rosto nas mãos, o vestido estava rasgado e como tudo naquele lugar estava desbotado, cinza, descascando. Senti um impulso repentino de abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem. Quis fugir levando-a nos braços. Ela era diferente, suas imperfeições eram perfeitas. Havia cor no cinza do corpo dela, eu sei.Tentei me aproximar, mas não pude. Meus pés colaram no chão. Talvez fosse tarde demais. Quando dei por mim havia um garoto tocando minha mão esquerda. Branco e frio como a morte. Era diferente também, tinha passos firmes e nunca sentaria. Olhar vazio. Ele sorriu um sorriso triste e eu o abracei. Certamente era tarde demais.Senti meu corpo mudar, a imagem provavelmente foi semelhante à morte de uma lula gigante. Perdendo a cor, perdendo a vida. Fisgada por uma falsa impressão.
Parecia ruim demais para ser verdade. E era!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Deficientes

Desde criança sempre vi a deficiência da humanidade.Os brancos eram deficientes por escravizar os negros,numa deficiência de perceber o semelhante;
Alguns masculinos eram deficientes em ver o feminino e só queriam saber de sair comendo todas as mulheres do mundo,numa deficiência de fidelidade;alguns pais tinham deficiência em educar seus filhos para serem generosos; vi patroas com deficiências em tratar educadamente suas empregadas domésticas.
E fui crescendo e compreendendo que todos, sem exceção, possuíam alguma deficiência, nem que fosse em matemática. E sempre teve lá o compartimento dos “deficientes propriamente ditos”, que eram os deficientes físicos ou mentais.
Só que para mim eles eram apenas portadores de uma das deficiências, que nem era tão grave quanto as que eu considerava gravíssimas, as deficiências humanitárias: crueldade, fome, miséria, poder religioso ou econômico para subjugar — isto sim é lamentável.Sabia que a cadeira de rodas atrapalhava, que os mongolóides davam trabalho,necessitavam de cuidados especiais, mas e daí,quem não tem dificuldades ou precisa de carinho e atenção?
Portanto só mudava de endereço, até que mudou de nome no politicamente correto: eram excepcionais, viraram portadores de necessidades especiais. Mas no fundo ele sempre soube que era um excepcional: na rua apontavam o sem perna, o negro, e o apontavam porque era maricas.
Sempre me posicionei do lado deles. Era tão difícil para mim quanto para eles.E quando os heteros dizem“não quero meu filho gay porque gay sofre muito”, retruco:“E hetero não sofre?”
Ele era um deficiente, menos de pinta, brilhos e penas.
Samba para o sorriso dos portadores de Down e eles sempre dizem
que ele ê “muito divertido”. Acho que eles o acham um boneco, talvez. A cadeirante que só samba com o ombro desperta nele um remeximento de ombros que quase desestrutura seu esqueleto.A anã me apresenta seu marido com cara de safada.
Na festa deste ano da Escola,andando por entre mesas,uma velha senhora,o olhou de cima abaixo,desmunhecou menosprezando a bicha, eu me aproximei e disparei: “Tá vendo,a senhora também é deficiente, sua doença chama-se babaquice”.
Deficiente é o preconceito!