domingo, 14 de outubro de 2018

OUVI NO RÁDIO.



Dona Tita estava com as mãos na massa, preparando o bolo para o primeiro aniversário do bisneto. Foi quando ouviu o comentário de  um jornalista sobre uma notícia que a deixou chocada. Um homem assassinado na Bahia por divergências políticas, e o jornalista de uma rádio "evangélica" dizendo que essas coisas acontecem.
Dona Tita sentou. O homem do rádio continuou noticiando outras coisas. Ela ficou com a imagem paralisada. Dona Tita viveu a ditadura, chorou o desaparecimento do filho de uma amiga, que era seminarista. Acompanhou mães que juntas com o Bispo procuravam os filhos que o sistema perseguia, era perigoso. Depois do susto da notícia e do comentário, ficou com raiva. Como um jornalista vulgariza a morte de alguém? Como? Pensou um pouco. Disse para si mesma que não iria permitir que a raiva a dominasse.

Respirou fundo. Voltou a preparar o bolo. Dizia para as amigas que essa terra era abençoada por Deus, não apenas pelo clima, pela água em abundância, mas pelo povo que não era adepto a preconceitos. No Brasil, dizia  Dona Tita, pode ser dessa ou daquela religião, nascido nesse ou naquele lugar, torcer para um ou outro time, ser dessa ou daquela escola de samba, gostar mais desse ou daquele governante. No Brasil, tudo é paz.
Enquanto mexia a massa para o bolo, os olhos de Dona Tita teimaram em derramar lágrimas. As lágrimas são para nos lembrarmos da beleza dos sentimentos.
Filhos, netos, bisnetos, Dona Tita já viveu muito e, por isso, é agradecida a Deus. Mas quer viver mais. Diz sempre que, se depender dela, prefere ficar por aqui, embora acredite que há um outro lugar lindo que abraça os que se vão. Deus não nos faria para acabarmos. É o que ela diz. Mas não tem pressa.
Dona Tita muda a estação do rádio. Não quer ouvir o jornalista mais. Prefere uma música. Uma música calma para acalmar os seus sentimentos. O bolo vai ficar lindo, a festa também. O bisneto, neto de deu filho caçula merece.
Enquanto pensa isso, fecha os olhos e reza do seu jeito. Pelo Brasil. Pelos brasileiros. Que uma luz ilumine os que andam encobertos pela raiva. 
Dona Tita é uma mulher que ama amar, por isso gosta tanto de viver, e vive em meus devaneios e delírios!

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