Quem começa uma conversa sobre aborto perguntando: “você é favorável ou contrário ao aborto?” está com má-fé e se nega a ter uma reflexão séria sobre uma questão delicada. Ninguém é favorável. Ninguém imagina uma mulher dizendo: “vou ali fazer um aborto e volto para almoçar”. Defender o direito ao aborto com toda a segurança, obrigatoriamente, pelo Estado. No Brasil, só existem 3 hipóteses previstas na lei: estupro, risco à vida da mulher e feto anencefálico.
Constatar milhares de mulheres fazendo aborto em condições precárias, sem a assistência do Estado e com altíssimo número de mortes e mutilações. As que possuem poder econômico(dinheiro), se submetem ao procedimento em clínicas e hospitais particulares.
Aborto é o direito de a mulher decidir sobre o corpo dela, mas é também um assunto em que o homem tem que se manifestar, é preciso conscientizar que o aborto é uma questão de saúde pública.
Parte desses que se posiciona, até de maneira agressiva, a favor de projetos repressivos sobre criminalização do aborto, são hipócritas quando uma gravidez indesejada acontece. Vários recorrem a hospitais e médicos particulares para fazer o que querem criminalizar em nome de uma "fé" que nada tem de semelhança com Deus.
De cada 10 abortos, 6 são de crianças até 13 anos. Majoritariamente, negras e pobres. Meninas. Crianças abusadas e estupradas por alguém da família. Alguém próximo. A criança nem se dá conta da gestação. Só descobre depois das 22 semanas previstas no projeto do estupro. E querem criminalizar a opção de não ter um filho fruto de um estupro com pena maior do que a do estuprador! Um escândalo.
No Brasil, fonte Ministério da Saúde, foram feitos 2.687 abortos legais no ano passado. Desses, 600 foram realizados após a 22ª semana de gestação. As dificuldades das crianças são enormes. Além do trauma de serem violentadas por pessoas que deveriam cuidar delas, 70% dos estupros ocorrem dentro de casa. A criança nem percebe que está grávida. Não conhece seu corpo, tem medo, tem vergonha e não tem com quem se consultar ou dialogar. Depois que se descobre a gravidez indesejada, fruto de um estupro criminoso e covarde, são várias as dificuldades de interrupção da gestação, que é um direito das mulheres nesse caso. Só 2% dos municípios brasileiros oferecem uma unidade de saúde com condições de realizar o aborto legal.
A cena escabrosa promovida por um senador da República, que me recuso a escrever o nome, no Plenário do Senado Federal, ao levar uma mulher para interpretar um feto, me envergonhou e me revoltou. A tentativa de apoiar o Projeto 1904/24 foi uma cena repulsiva. Perderam o senso do decoro e do ridículo. Com a intenção política de criminalizar a mulher e a criança que é estuprada, é importante que compreendamos que esses representantes do povo, e também seus eleitores, são cúmplices dos horrores que defendem em nome de Deus.