Era tarde
Descobrimos que coisa pode quebrar
Sem fazer barulho
Casas sabem disso
Passam anos
Acumulando sinais
Infiltração
Fechadura emperrada
Trinca discreta
Coberta pela tinta
Vista de longe
Parecem inteiros
Por muito tempo
Confundi funcionamento
Com presença
Acordava
Trabalhava
Respondia se me chamavam
Documentos assinava
Abria portas,
Fechava portas
Sequência exata
Movimentos corretos
Como um elevador
Que continua subindo e descendo
Esquecido de saber para quê
Sem perceber
A ausência
Aprende a usar o seu rosto
E se torna eficiente
Educada
Pontual
Senta à mesa
Atende pelos seus nomes
Caminho pela cidade
Tudo me parece montado
Como se o mundo inteiro
Fosse um museu
E eu chegando
Após o expediente
Luzes acesas
Não há ninguém
Talvez haja
Talvez vazio seja eu
Considerei essa hipótese
Sem tristeza
Mas como quem examina
Uma rachadura na parede
Minhas perguntas
Não querem respostas
Querem companhia
Ficam sentadas
Entre uma hora e outra
Olhando
Esperando
Parei de expulsá-las
Elas já conhecem
O caminho de casa
Quanto mais observo
Menos solidas as coisas parecem
Pessoas mudam
Promessas mudam
Memória muda
A dor
É especialista em permanência
As vezes troca de endereço de vez em quando
Por isso
Sinto vontade de desmontar tudo
Não é raiva
É curiosidade
Quero ver o que existe
Atrás das paredes
Embaixo do piso
Dentro das palavras
Que repete sem pensar
Dentro de mim principalmente
Suspeito que passei anos morando
Numa construção abandonada
Acreditando que era um lar
Hoje escuto estalos
Poeira caindo do teto
Canos gemendo na madrugada
Alguma coisa está cedendo
Não corro para consertar
Fico olhando, atento
Talvez a maneira de encontrar alguma verdade
Seja assistir com os próprios olhos
Aquilo que não pode mais permanecer de pé.
Porque somos seres pensantes e afetivos, os questionamentos fazem parte de nossas vidas!
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